Setembro Amarelo: como os animais podem fazer parte de uma rede de afeto e acolhimento

No Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio e à valorização da vida, falar sobre saúde mental também é falar sobre vínculos, acolhimento e sobre a importância de não atravessar momentos difíceis sozinho. Para algumas pessoas, esse vínculo pode nascer de uma relação que começa de maneira inesperada: a convivência com um animal. É o caso de quem passou a vida dizendo que não queria ter um pet e, depois de conviver com um, já não consegue imaginar a própria vida sem aquela companhia. O que começa como resistência pode se transformar em afeto, rotina e uma relação profunda de cuidado.

Um animal não está presente apenas nos momentos felizes. Ele participa dos dias comuns, das manhãs corridas, das noites silenciosas e também daqueles momentos em que simplesmente não estamos bem. Um exemplo que ganhou as redes sociais é a história de Dodô e Lady. O senhor ganhou uma cachorrinha do filho e da nora e, a partir daí, os dois construíram uma relação que emocionou milhares de pessoas. O primeiro vídeo publicado sobre a dupla ultrapassou 40 milhões de visualizações, mostrando a força que histórias simples de afeto e companhia podem alcançar.

Mais do que números, a repercussão mostra como histórias de afeto entre pessoas e animais conseguem tocar diferentes gerações. Quem assiste também pode reconhecer algo familiar: a companhia de um animal que passa a fazer parte da rotina, ocupa um espaço dentro de casa e, pouco a pouco, também ocupa um espaço dentro da vida. 
Histórias como a de Dodô e Lady ajudam a lembrar que a relação entre humanos e animais vai além de simplesmente ter um pet. É sobre construir uma conexão. E é justamente nesses pequenos gestos que a médica-veterinária Jéssica Romero encontra parte da força dessa relação. Para ela, a convivência pode proporcionar momentos de acolhimento e bem-estar.
 
“Quando um cachorrinho ou um gatinho vem correndo te receber na porta, com toda aquela alegria, a pessoa se sente acolhida com aquele bichinho, que passou o dia esperando. É impossível não abrir um sorriso e esquecer de tudo que é ruim por um momento, por mais difícil que o dia tenha sido. Nesse breve momento você regenera um pouco as suas energias e se contagia com tanta animação.”
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Médica-veterinária Jéssica Romero – Foto: Arquivo Pessoal

Mas o vínculo não está apenas nos momentos de carinho. A convivência com um animal também transforma a rotina de maneira concreta. Alimentação, higiene, vacinação, prevenção de doenças, passeios, brincadeiras e acompanhamento veterinário passam a fazer parte do dia a dia.

“Existe alguém que depende de você e precisa dos seus cuidados. E, para algumas pessoas, essa rotina de cuidar de outro ser também pode trazer uma sensação de propósito, presença e conexão. Cada animal, dentro das suas características, encontra uma maneira própria de estabelecer vínculo com seu tutor. E é justamente essa relação única que torna a convivência tão especial”, comenta a profissional, que possui seis pets.

O que a psicologia explica sobre esse vínculo

A relação construída entre pessoas e animais também pode ser analisada pela psicologia. Para a psicóloga e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Vanessa Gondim, essa compreensão pode ser relacionada à abordagem junguiana, desenvolvida pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung.

De maneira simplificada, a psicologia de Jung considera que nem tudo o que sentimos ou vivenciamos é percebido de forma consciente. Existem emoções, comportamentos e aspectos da personalidade que nem sempre conseguimos identificar ou compreender imediatamente. Dentro dessa perspectiva, a relação com um animal pode ser compreendida como uma experiência capaz de aproximar a pessoa de aspectos mais instintivos e emocionais.
Para Vanessa, essa característica ajuda a compreender por que a convivência com um pet pode despertar sentimentos de acolhimento e favorecer uma conexão mais espontânea consigo mesmo.
 
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Psicóloga e docente da Universidade de Fortaleza, Vanessa Gondim – Foto: Arquivo Pessoal
“A dinâmica da psique para Jung compreende a existência da consciência e do inconsciente. O animal pode representar a natureza instintiva da psique e isso pode ser visto no capítulo escrito no livro ‘O homem e seus símbolos’. O que Jung chama de Self, representante da totalidade psíquica, pode muitas vezes aparecer pela simbologia de um animal, que representa a dimensão instintiva do indivíduo e também a sua conexão com a natureza.”

Na prática, essa perspectiva sugere que a convivência com um animal pode aproximar a pessoa de sentimentos e necessidades que acabam sendo deixados de lado na correria do dia a dia. Em uma rotina marcada por cobranças, decisões e exigências, a relação com um pet acontece de uma forma diferente: não depende de explicações ou desempenho e pode ser construída simplesmente pela presença e pelo contato.

“Hoje, há uma tendência ao culto ao racionalismo, ao materialismo, o que muitas vezes afasta o sujeito de si mesmo, do seu contexto espiritual. O animal como representação do instinto aparece como esse símbolo carregado de afetos e é responsável por nos auxiliar nessa conexão com a natureza instintiva de ser humano, mais emocional. E isso está diretamente ligado ao fato de a experiência de conviver com animais poder gerar essa sensação de acolhimento. O animal não tem demandas intelectuais nem exigências racionais, ele se conecta através do corpo, do olhar, do toque”, comenta.

Um vínculo que também exige cuidado

A relação entre humanos e animais também envolve responsabilidade. A médica-veterinária Jéssica, natural de Sorocaba (SP) e moradora de Fortaleza há três anos, conhece essa experiência não apenas profissionalmente, mas também como tutora. 
Durante um atendimento veterinário em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, ela se deparou com um gatinho que, posteriormente, passaria a se chamar Angelito. Hoje, o animal convive com calicivirose felina, condição que exige atenção e cuidados específicos.

Em espanhol, Angelito significa “pequeno anjo”, e Jéssica conta que “carrega orgulho de ter colocado este nome nele”. O significado do nome também traduz, de certa forma, a relação construída entre os dois e a maneira como o gatinho passou a fazer parte de sua rotina. A história de Angelito mostra que o vínculo entre humanos e animais envolve não apenas afeto, mas também responsabilidade, atenção e compromisso com o bem-estar do animal.
“Eu sou muito grata aos animais por tudo o que eles me ensinam todos os dias. Eles me lembram que o amor pode estar nas coisas mais simples: em um olhar, em uma chegada, em um carinho. Cuidar deles é uma responsabilidade, mas também é um privilégio. De alguma forma, enquanto eu cuido deles, eles também cuidam de mim”, finaliza Jéssica.

No Setembro Amarelo, histórias como a de Dodô e Lady e a relação de Jéssica com Angelito ajudam a ampliar a conversa sobre saúde mental e sobre as diferentes formas de conexão que fazem parte da vida.

Ter um animal não substitui uma rede de apoio nem o acompanhamento de profissionais de saúde quando ele é necessário. Os vínculos construídos com eles, porém, podem fazer parte da rotina e das relações que oferecem companhia, afeto e conexão. Falar sobre esses vínculos é, também, lembrar da importância da presença e do acolhimento. Em momentos de sofrimento, ninguém precisa atravessar tudo sozinho.

Fonte: Aline Freires

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