O Cerrado brasileiro, território que já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, é o tema central de Menos da Metade, espetáculo da Quasar Cia de Dança. Esta é a primeira vez que o grupo goiano, com mais de 35 anos de existência, aborda diretamente a crise ambiental contemporânea para fazer um alerta sobre o comprometimento de um dos biomas mais diversos do planeta.
Com realização da Quasar Cia de Dança e do Ministério da Cultura, em circulação nacional apresentada pelo Ministério da Cultura e pelo PicPay, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, Menos da Metade chega a Fortaleza com apresentações nos dias 31 de outubro, às 20h30, e 1º de novembro, às 18h, no Theatro José de Alencar. A temporada acontece em parceria com a X Bienal Internacional de Dança do Ceará De Par em Par. O acesso é gratuito.
Criada por Henrique Rodovalho, com direção geral de Vera Bicalho, em 2023, o espetáculo faz uma turnê em diferentes cidades e regiões: Manaus, Fortaleza e São Paulo nos meses de outubro e novembro. A circulação inicia em Manaus, com apresentações nos dias 19 e 20 de outubro no Teatro Amazonas. Depois de Fortaleza, o espetáculo seguirá para São Paulo, com temporada nos dias 27 e 28 de novembro no Teatro Sérgio Cardoso.
“É a primeira vez que a Quasar trata de um assunto especialmente do seu lugar de existência. Até então, nós nunca tínhamos criado algo especificamente do Centro-Oeste, do nosso Cerrado”, coloca o coreógrafo Henrique Rodovalho.
A partir do ciclo climático do Cerrado, entre o fim das chuvas e a seca, o espetáculo acompanha as diferentes paisagens ao longo dos meses na região e evidencia sensações, temperaturas e sonoridades. Com oito bailarinos em cena, Rodovalho traduz nos corpos, a partir da linguagem construída pela Quasar, estados de florescimento, erosão, devastação e o avanço do agronegócio.
“O espetáculo é uma tentativa de fazer o público sentir o Cerrado no corpo”, nas palavras do coreógrafo. Dessa forma, a narrativa traz, nos primeiros minutos da obra, as águas que florescem o Cerrado e transformam a vegetação. As noites frescas e sonoras do inverno goiano, captadas pela trilha sonora dos músicos goianos Luiz Clímaco e Henrique Reis, revelam a atmosfera desses meses da região. A coreografia traduz a beleza da vegetação, a contorção das árvores e a leveza dos sons.
Na sequência, a cena registra a seca, quando o verde desaparece e os corpos são marcados pelo calor, pela poeira e pela aridez. Os bailarinos deixam de representar apenas elementos da natureza e passam a mostrar o ser humano assolado pelo calor e pela exaustão. O ciclo natural ganha contornos mais tensos com a exploração do espaço e o gado transformado em mercadoria. A lógica de exploração do território traz como consequência queimadas desmedidas e desmatamentos que indicam processos de destruição da vegetação nativa e do habitat animal. Ao mesmo tempo, essas imagens contrastam com o luxo das vestimentas associadas ao poder do agronegócio. Aos poucos, o palco perde seus elementos e surge um deserto de recursos.
“Eu tenho pensado nesse trabalho há bastante tempo e cada vez mais percebo sua necessidade. Nos últimos anos, tivemos episódios de temperaturas fora do comum em todo o Brasil, com secas devastadoras em alguns lugares e chuvas destruidoras em outros. Até mesmo para quem é produtor rural, essas condições são prejudiciais. Goiás é o estado que mais tem terras produzindo soja ou criando bovinos. Precisamos de mais terras para garantir novas safras e rebanhos? A ideia desse espetáculo da Quasar é levantar essas questões, mesmo que cause incômodo. Debater isso, a partir de um estado que desmata e está perdendo seu bioma, é nossa obrigação”, diz Rodovalho.
Menos da Metade compõe uma dramaturgia física que coloca lado a lado a fragilidade ambiental e a permanência da vida. Apesar do impacto da devastação, há uma ponta — uma árvore — de esperança e resistência.
A narrativa mantém características das criações da Quasar, como a precisão técnica, as “quebras das linhas contínuas” em favor de movimentos fragmentados, os deslocamentos inesperados e interrompidos, além de uma ocupação pouco convencional do espaço e da intimidade entre música, coreografia e bailarinos.
Rodovalho também assina o desenho de luz que acompanha as fases pelas quais o Cerrado passa ao longo do espetáculo. O figurino, criado por Cássio Brasil, e o cenário, idealizado por Marcus Camargo, também contribuem para a experiência visual da obra. A trilha sonora de Luiz Fernando Clímaco e Henrique Reis inclui canções que remetem a composições consagradas de músicos goianos, além de sonoridades características do Cerrado e ritmos percussivos, que tanto impactam quanto emocionam.
Reconhecida nacional e internacionalmente por sua linguagem autoral, a Quasar Cia de Dança reafirma neste trabalho sua capacidade de reinventar a dança contemporânea brasileira ao conectar rigor técnico, teatralidade e urgência política. Menos da Metade propõe escuta e sensibilidade para transformar o palco em território de memória, luto e resistência.
Sinopse:
Menos da Metade, obra da Quasar Cia de Dança, acompanha o ciclo climático do Cerrado e sua devastação ambiental. Com coreografia de Henrique Rodovalho, o trabalho mergulha nas características do bioma do centro-oeste brasileiro; e os oito bailarinos do elenco trazem a beleza, a fragilidade e a resistência do Cerrado diante do avanço do desmatamento. Este é o primeiro trabalho em que a companhia trata de um assunto de seu lugar de existência e faz um alerta sobre a crise ambiental da região.
Ficha Técnica:
Ficha técnica
Direção Quasar Cia de Dança e coordenação de produção: Vera Bicalho
Direção artística, criação coreográfica e desenho de luz: Henrique Rodovalho
Elenco: Bruna Alecrim, Gabriel Bernardo, Iago Gabriel Melo, Jackeline Leal, Murilo Heindrich, Pedro Soares, Thaís Kuwae e Wanessa Paula.
Assistente de coreografia e professora de balé clássico: Tassiana Stacciarini
Cenário e identidade visual: Marcus Camargo
Tapeçaria: Decoralle Tapetes
Figurino: Cássio Brasil
Assistente de figurinista: Marina Cunha e Laura Linhares
Diretor técnico e operação de luz: Sérgio Galvão
Cenotécnico: Jeferson de Almeida
Trilha sonora: Luiz Clímaco e Henrique Reis
Cantoras: Cláudia Vieira e Grace Carvalho
Narração do texto jornalístico: Luiz Clímaco*
Produção executiva: Marci Dornelas – Lúdica Eventos e Projetos Culturais
Produção de logística: Giselle Carvalho
Produção São Paulo: Corpo Rastreado – Gabs Ambròzia
Coordenação de comunicação: Flávia Fontes Oliveira | Dialeto Arte e Comunicação
Redes Sociais: Agência Brave Company
Identidade Visual e Design: Samuel Kavalerski
Fotos: Layza Vasconcelos, Marcella Consorte, Rubens Cerqueira
Consultor de projetos Socioculturais: Marcelo Carneiro
Assessora da gestão administrativa: Marcela Carvalho Campos
Assistente administrativo: Renatta Kelly Silva
Contabilidade: DCon Serviços Contábeis
Manutenção site: GoSite!
Assessoria de Imprensa no Ceará: Dégagé Comunicação – Sônia Lage
*Texto de Paloma Guitarrara para o site Brasil Escola
SERVIÇO
Quasar Cia de Dança – espetáculo Menos da Metade – Dias 31 de outubro às 20h30 e 1º de novembro às 18h no Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525 – Centro, Fortaleza/CE). Acesso gratuito.

