A pesquisa tem a autoria de José Jovanny Bermudez Sierra, doutor pelo Programa de Biotecnologia (Renorbio), do qual faz parte a Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz. Natural da Colômbia, Jovanny está no Brasil desde 2011 e em 2016 passou a integrar o time de pesquisadores do Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) que faz parte do Parque Tecnológico da Unifor (Tec Unifor).
A pesquisa nasceu de seu interesse em novos biomateriais voltados a tratamentos odontológicos, não apenas para o avanço científico, mas também para responder às crescentes demandas sociais por procedimentos mais seguros, acessíveis e biologicamente compatíveis.
Consiste no processo de extração, purificação e tratamento de biomateriais, especialmente hidroxiapatita (HAp) e colágeno tipo I, obtidos das escamas do peixe conhecido como Tilápia do Nilo, uma fonte natural abundante e de baixo custo.
O estudo resultou no desenho de um biocompósito híbrido-polimérico baseado em hemiceluloses de origem vegetal associadas à HAp (em formas amorfa, micro e macro-porosa) e ao colágeno fibroso, configurando um material biocompatível, osteoindutor (que induz a formação óssea) e osteocondutor (que repara o osso), com elevado potencial de aplicação na engenharia tecidual, na regeneração óssea e em procedimentos de regeneração tecidual guiada (ROG e RTG).
E ele acrescenta: “Tais inovações contribuem para tratamentos mais eficazes, duradouros, confortáveis e, economicamente viáveis, ampliando as possibilidades terapêuticas em implantodontia e periodontia”, acrescenta o pesquisador.
Vantagens dos biomateriais obtidos a partir das escamas da Tilápia do Nilo:
Maior biocompatibilidade;
Aumento da durabilidade e resistência de próteses e restaurações;
Estímulo à regeneração de tecidos bucais;
Aprimoramento de procedimentos preventivos e restauradores;
Potencial antimicrobiano e melhoria estética, com materiais que mimetizam mais fielmente a estrutura dentária natural.
Benefício social evidente
A relevância social da pesquisa torna-se ainda mais evidente quando se observa o contexto atual da indústria odontológica. Segundo estudos recentes, no Brasil, são realizados aproximadamente 800 mil implantes por ano, com uma indústria nacional que já supre cerca de 90% do mercado e projeta expansão contínua.
Dentro desse cenário, biomateriais seguros, com menor risco biológico e obtidos de fontes renováveis tornam-se estratégicos tanto para a saúde pública quanto para o desenvolvimento industrial. Segundo Jovanny, os novos biomateriais permitem a diminuição do valor final do enxerto, uma das etapas do procedimento que mais encarece os tratamentos de implantodontia.
O que muda com a carta patente
Com a concessão da carta patente pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), é possível a transferência da tecnologia para o mercado. Com a proteção intelectual assegurada, abrem-se possibilidades para licenciamento, parcerias estratégicas, criação de startups ou spin-offs e captação de investimentos em inovação aberta, como explica a diretora do Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) da Unifor, professora Cristina Moreira:
“Além de validar a excelência científica do trabalho realizado no NUBEX, a carta patente cria condições objetivas para a transferência de tecnologia ao setor produtivo, por meio de licenciamento e parcerias estratégicas, impulsionando inovação com impacto concreto. Essa conquista reforça, ainda, um aspecto essencial: ao transformar um resíduo de baixo valor agregado em um produto de alto desempenho, fortalecemos uma agenda de sustentabilidade, redução de custos e ampliação do acesso a tratamentos odontológicos, com potencial benefício para a saúde pública e para o desenvolvimento industrial”, acrescenta a pesquisadora.
Para Jovanny, um dos objetivos é exatamente este – utilizar o biocompósito desenvolvido a partir das escamas da tilápia em soluções comerciais aplicadas à regeneração óssea, contribuindo para ampliar o acesso da população a tratamentos mais eficientes, humanos e sustentáveis.
O pesquisador aproveita para agradecer às instituições que tornaram possível a pesquisa: “Agradeço especialmente ao Nubex//Unifor, ao programa Renorbio, à UFC, UECE e ao Governo Brasileiro que financiou esta pesquisa por meio do Programa de Bolsas OEA, em parceria com a Capes. Cada etapa deste percurso foi construída coletivamente, e essa patente é uma conquista que, antes de tudo, representa um testemunho da força da cooperação científica e humana.”
Sobre o Nubex
O Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) é um centro de excelência em pesquisa nas áreas de pesquisa, de inovação e desenvolvimento para diversos segmentos, principalmente da saúde, de alimentos, fármacos e educação.
O Nubex faz parte do Tec Unifor, o Parque Tecnológico da Universidade de Fortaleza, beneficiado com investimentos da Fundação Edson Queiroz e da Financiadora de Estudos e Pesquisa (Finep), por meio da chamada pública: “MCTI/Finep/FNDCT/CT – Verde Amarelo – Parques Tecnológicos / Seleção Pública de Propostas para o Apoio Financeiro a Parques Tecnológicos em Implantação e em Operação”.
O Núcleo também atua como unidade de suporte aos mestrados institucionais em Ciências Médicas, Enfermagem e Odontologia e ao Doutorado em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio), além de programas de Pós-Graduação de Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) parceiros.

