O aumento do tempo que crianças e adolescentes passam diante das telas volta a preocupar durante as férias escolares. Sem a rotina das aulas e atividades extracurriculares, muitas famílias enfrentam o desafio da ociosidade dos filhos que, com poucas opções de atividades, acabam recorrendo à televisão, videogames, celulares e computadores como principal forma de entretenimento. Embora as tecnologias possam oferecer momentos de diversão e aprendizado, especialistas alertam que o uso excessivo nas férias pode trazer consequências para a saúde física, emocional e cognitiva das crianças, além de dificultar a readaptação à rotina escolar no retorno das aulas.
A psicóloga e docente do Instituto de Educação Médica (Idomed), Ana Beatriz de Lima, as férias costumam representar uma quebra importante na estrutura diária das crianças, o que pode favorecer hábitos pouco saudáveis. “Muitas famílias não conseguem viajar ou acompanhar os filhos ao longo do dia porque precisam trabalhar e é natural que os dispositivos eletrônicos preencham esse tempo. O problema surge quando esse uso se torna a única atividade da criança”, explica.
De acordo com a psicóloga, a exposição prolongada às telas está associada a dificuldades de concentração, alterações de humor, irritabilidade, prejuízos na socialização e até distúrbios do sono. “O cérebro infantil precisa de estímulos variados. Brincadeiras ao ar livre, leitura, interação com outras crianças e atividades criativas são fundamentais para o desenvolvimento. Quando a maior parte do dia é dedicada às telas, essas experiências acabam sendo substituídas por um estímulo único”, afirma.
Impacto na saúde física
A pediatra e docente do Idomed, Eucilene Kassya, destaca que os impactos da exposição excessiva às telas também podem ser observados na saúde física. “Esse comportamento favorece o sedentarismo que, automaticamente, contribui para problemas como ganho de peso pois reduz o gasto energético e até alterações na qualidade do sono, especialmente quando há uso de dispositivos próximo ao horário de dormir ”, explica a médica.
A médica ressalta que não é necessário eliminar por completo os eletrônicos nas férias, mas buscar equilíbrio e garantir que eles façam parte de uma rotina diversificada. “A dica é para os pais estabelecerem horários para o uso de telas e incentivar outras atividades compatíveis com a realidade da família. Nem sempre é possível proporcionar passeios ou viagens, mas brincadeiras em casa, jogos de tabuleiro, leitura e momentos de convivência longe das telas já ajudam a reduzir significativamente a dependência”, orienta.
No retorno às aulas, a psicóloga Ana Beatriz afirma que a fase costuma trazer outro desafio, que é a dificuldade de readaptação à rotina. Porém, ela explica que um dos erros mais comuns é tentar reduzir drasticamente o tempo de exposição apenas um ou dois dias antes do reinício das aulas. “O ideal é realizar uma redução gradual. Cerca de uma semana antes da volta às aulas, a família deve começar a restabelecer os horários de sono, alimentação e uso dos dispositivos eletrônicos. Quando essa mudança acontece de forma abrupta é pior, pois a criança tende a apresentar resistência, irritação e até dificuldade para se concentrar”, destaca.

