Da gravura ao futuro: a criação da estampa que traduz a identidade do Projeto Tartarugas do Futuro

Com traços inspirados na cultura visual cearense, a artista Lia Aguiar transforma tartaruga, mangue, sol e mar em uma narrativa gráfica sobre território e conservação

O que pode dizer uma camiseta sobre uma causa? Para o Projeto Tartarugas do Futuro, a resposta passa por uma imagem que reúne território, identidade e conservação em uma única composição.

Criada pela artista e designer gráfica Lia Aguiar, a ilustração que hoje estampa a camiseta da ONG nasceu de uma conversa sobre como traduzir visualmente um trabalho que acontece nas praias de Fortaleza, especialmente em territórios como Praia do Futuro e Sabiaguaba. O resultado é uma narrativa gráfica em que tartaruga, mangue, sol e mar deixam de ser apenas elementos visuais e passam a construir uma história sobre pertencimento e futuro.

A escolha dos traços também carrega identidade. Formada em arquitetura e dedicada à arte há cerca de seis anos, Lia encontrou na gravura uma das principais linguagens do seu trabalho. Desde 2016, a técnica passou a atravessar diferentes frentes de sua produção, da tatuagem à identidade visual.

Mesmo quando não utiliza diretamente a xilogravura, a artista mantém em seus desenhos referências da literatura de cordel e da estética da gravura, aproximando sua produção de uma visualidade profundamente ligada ao Nordeste.

“Eu trouxe a gravura para todos os aspectos da minha vida”, conta Lia. Para ela, essa linguagem tem uma força própria por carregar, já nos traços, uma dimensão regional. “Ela já traz esse regionalismo, que eu acho tão bonito, da gente mesmo aqui.”

Quando o território vira linguagem

A criação da estampa começou, segundo a artista, a partir de uma construção compartilhada. A proposta não era simplesmente desenhar uma tartaruga, mas encontrar elementos capazes de situar visualmente a causa e sua relação com Fortaleza.

“A gente queria retratar de alguma forma que isso acontecia em Fortaleza e nos locais onde isso acontecia”, lembra Lia.

Foi desse diálogo que surgiram referências à Praia do Futuro, Sabiaguaba, ao mangue, ao sol e ao mar. Elementos reconhecíveis da paisagem local foram incorporados à composição até formar uma espécie de mapa afetivo da causa.

O processo de Lia, porém, está longe de ser linear. Ela descreve sua criação como “muito difusa”, alimentada por experiências cotidianas e referências que podem surgir de uma paisagem, de uma música, de um filme ou até de uma situação inesperada.

“As inspirações vêm muito aleatórias”, explica. Depois, essas referências vão sendo sintetizadas no papel, em um processo de experimentação e construção.

Existe ainda uma característica que atravessa seu trabalho: a pesquisa. Como gosta de desenhar animais, Lia buscou compreender melhor as tartarugas antes de chegar à versão final da ilustração.

“Eu sempre faço uma pesquisa sobre o assunto. Vou atrás de pesquisar os animais”, afirma.

Uma tartaruga pensando no futuro

Entre os significados incorporados à ilustração está um detalhe que talvez passe despercebido à primeira vista: a própria posição da tartaruga.

Ao desenhá-la seguindo em direção ao alto, Lia imaginou o animal pensando no futuro. A ideia ganhou dela mesma um apelido bem-humorado: a “tartaruga filosófica”.“Eu estava pensando no futuro delas, das tartarugas”, conta.

A brincadeira traduz uma camada importante do conceito. O futuro, nesse caso, não é apenas uma referência ao nome do projeto ou à conhecida Praia do Futuro. É também uma provocação sobre o destino da própria espécie e sobre a necessidade de preservar os ambientes que tornam esse futuro possível.

Outro elemento simbólico aparece nas raízes do mangue. Para a artista, elas ajudam a representar a relação entre natureza e território.

“As raízes do mangue também têm essa coisa das raízes entranhadas no nosso local”, explica.

Da camiseta para a comunicação da causa

A preocupação com a aplicação da arte sobre o tecido também fez parte do processo criativo. Lia conta que precisou pensar em contraste, cores, legibilidade e na possibilidade de a ilustração funcionar sobre diferentes fundos.

O desafio era chegar a uma composição limpa e clara, sem perder a riqueza dos elementos que compõem a narrativa.

Mas a estampa nunca foi pensada apenas como uma aplicação gráfica sobre uma peça de roupa.

Desde o início, a intenção era que a ilustração funcionasse como uma extensão da própria causa. “Quando a gente pensou na ideia da estampa, a gente já pensou nela comunicando a causa”, afirma Lia.

Nesse sentido, a camiseta deixa de ser apenas um produto e passa a funcionar como suporte de comunicação. Quem a veste também carrega uma narrativa: a tartaruga como símbolo, o território cearense como identidade e o futuro como horizonte.

Design como ponto de encontro

Há, ainda, uma dimensão do processo que Lia considera fundamental: a criação como construção conjunta.

Para ela, nenhum trabalho nasce exclusivamente do olhar do artista. A conversa com quem está do outro lado é parte essencial para entender o que precisa ser comunicado e encontrar a tradução visual adequada.

“Nunca é um trabalho só meu. É sempre o meu trabalho com a outra pessoa que está criando junto.”

Na estampa do Projeto Tartarugas do Futuro, esse encontro resultou em uma imagem que combina referências pessoais da artista com a identidade e o propósito da organização.

É uma criação que parte da gravura, passa pela paisagem cearense e chega ao design como uma forma de contar uma história. Uma tartaruga que segue adiante, entre raízes, mar e sol, carregando consigo uma pergunta silenciosa sobre aquilo que vem pela frente.

Ou, nas palavras de Lia, uma verdadeira “tartaruga filosófica”, pensando no futuro.

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